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“A morte está atrás do seu beijo, e não me interessa nada que não possa me matar.

Não quero trajetos sem pedras, pessoas sem problemas, muito menos glórias sem lágrimas. Não quero o tédio de só continuar, a obrigação de suportar, andar na rotina só por andar. Não quero o vai andando, o é a vida, o tem de ser, nada que não faça gemer. Não quero o prato sempre saudável, a saladinha pura, a cama casta, o sexo virgem.

Não quero o sol o dia todo, a reta sem a mínima curva, não quero o preto liso nem o branco imaculado, não quero o poema perfeito nem a ortografia ilesa. Não quero aprender apenas com o professor, a palmadinha nas costas, o vá lá que isso passa, a microsatisfação, a minúscula euforia. Não quero os lábios sem língua, a língua sem prazer, fugir do que mete medo, e até me acomodar no que me faz doer. Quero o que não cabe no regular, o que não se mede nos manuais, o que não acontece nos scripts.

Quero a ruga esquisita, a mão descuidada, a estrada arriscada, a chuva, o vento, as unhas cravadas, o animal do instante. Quero ainda tentar o que ninguém fez, olhar para o imperdoável, gastar como um louco as possibilidades. Quero sobretudo o que me assusta, o abismo em segredo, o interior das suas pernas, a maneira como o suor escorre no centro do seu peito, e a forma impossível como você se exprime quando vem.
Me disseram que o seu beijo matava e eu não liguei,
há alguma maneira de sair com vida de você?”

(Pedro Chagas Freitas)

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