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Nada é tão bom quanto transar contigo pensando em ti

—> Nada é tão bom quanto transar contigo pensando em ti <—

Três anos se passaram sem se quer uma notícia, uma SMS ou sinal de fumaça. Você estudava do lado do meu trabalho, meu horário de saída coincidia com o início da tua aula e, ainda assim, o destino não cruzou nossos caminhos em nenhuma noite desses últimos 36 meses. Se por um lado eu agradecia aos céus, confesso que inúmeras vezes cogitei conseguir seu número com um amigo e propor um encontro em uma segunda de folga.

Sabia que você estava atuando como pai de família e eu também sustentava minha pose de esposa e mãe exemplar. A verdade é que a maternidade meio que me converteu e sempre que era tomada por esses pensamentos mirabolantes dava um jeito de abrir um livro e pesquisar ainda mais sobre alimentação saudável, benefícios da amamentação prolongada e afins.

Há alguns meses fui surpreendida com uma foto sua em uma rede social de uma guria das antigas. Sim, seu casamento tinha acabado e tu estava curtindo um fim de semana romântico em Ouro Preto com aquela que, finalmente, saiu do papel de amante e foi promovida à namorada. Pobre moça, pensei. Tão apaixonada. Um riso largo contornado por um batom vermelho e uma legenda fofa que convencia o mundo de que estavam vivendo o ápice da felicidade.

A conheci há alguns anos em uma festa universitária na república em que sua prima morava. Em uma baladinha qualquer trocamos meia dúzia de palavras, bebemos juntas, cantamos uns melodramas dos Hermanos, nos adicionamos nas redes sociais e compartilhávamos textos e poemas de autores cults contemporâneos.

Não me lembro de ter falado de ti, não tínhamos intimidade para esse tipo de lamentação, mas lembro de uma época em que ela morreu de amores pelo Dudu. Ela é legal. Eu sei. Só fiquei surpresa que tenha sido ela o pivô da sua separação. A guria deve ser boa mesmo. Conseguiu de forma digna o que tentei (em vão) por mais de cinco anos: te livrar daquele ser estranho que lhe roubava o brilho dos olhos e convencer que valia a pena se arriscar em outra história.

Claro que fiquei sabendo das circunstâncias e de como tudo aconteceu. Reza a lenda que até uma latada de NAN na cabeça em pleno shopping rolou. Pesado isso ai, mas me convenci de que alguma coisa forte tu devia sentir: assumir a amante de peito aberto logo após se livrar de um casamento? Se não era amor estava trilhando o caminho. Achei bonito, mas não consegui desejar felicidades, confesso.

Pouco tempo depois me contaram que a história não era tão recente assim: vocês já estavam juntos quando você descobriu que ia ser pai (e o filho não era dela). Ela te viu partir rumo a tentativa de formar uma família perfeita com sua ex. Complexo isso, mas bastante compreensível. Claro que na primeira oportunidade você recorreu a ela como válvula de escape e como era de se esperar: a enfeitiçou a ponto de aceitar suas migalhas e esperar uma conspiração do universo.

Não a julgo. Sei bem como funciona. Você é quase um diabo, mas que bom que no caso dela foi mais rápido. Eu continuo esperando essa conspiração cósmica. Continuo esperando que você olhe pra mim. Há exatos treze anos.

(…)
Em uma terça -feira qualquer acordo, esfrego os olhos e checo a hora: 7h45 da matina. Vejo o ícone do whatsapp no alto e, mesmo morrendo de sono, clico para conferir se eram as moças ousadas dos vídeos que andam reascendendo minha libido. Sim, eram elas. Mas, logo abaixo estava sua cara estampada com o número ainda por gravar. Uma mensagem breve: “tenho pensado muito sobre o lance de dormir com vontade ou acordar arrependido”.

Pronto.
O caos estava anunciado.

Levei pelo menos duas horas para conseguir focar e responder algo no mesmo teor. Me limitei a dizer que “disso eu entendia” eu perguntar se, afinal, você havia dormido bem. Tu estava na estrada e mandou uma foto da placa que anunciava a entrada de São Paulo. Conversamos sobre superficialidades da vida. Na foto de perfil estava teu moleque pendurado em teu pescoço. Demorou alguns dias até que finalmente nos encontrassemos.

Tudo meio inesperado: já era sexta-feira, meu filhote estava com a avó e duas amigas vieram tomar café da tarde comigo. Mais cedo você havia mandado uma mensagem tosca falando sobre o dia do orgasmo. Ri e igonorei, mas falávamos de você exatamente quando o celular tocou e tua foto apareceu no visor.

Tinha acabado de chegar de viagem e queria saber onde eu estava. Fiquei em dúvida se devia responder. A voz travou. Enrolei e, por um motivo qualquer você disse que retornaria em cinco minutos. Nessa altura as meninas já estavam recolhendo o lanche, arrumando a mesa na velocidade da luz e quando dei por mim estávamos no meu quarto escolhendo um look casual e uma calcinha sexy. Minha cabeça girava a 200 km/h, meu coração estava gelado: porra, poderia ser qualquer um, mas era você! Outra vez você!

Estava insegura. Havia me separado há pouco mais de dois meses e recuperava de um quadro clinico há vinte e poucos dias. Pesava exatos 44 quilos e me torturava na academia há duas semanas tentando recuperar o mínimo da auto-estima. Tudo aqui dentro estava fora do lugar e eu sabia que o caos seria elevado ao nível máximo quando você entrasse pelo portão. Aliás, eu sabia que mais cedo ou mais tarde iríamos nos render, mas não podia imaginar que seria debaixo do meu teto que nos reencontraríamos.

Escovei os dentes e mandei uma mensagem: você tem meia hora. Enviei a localização e antes mesmo que as meninas tivessem sumido no fim da rua você já estava ligando perguntando se tinha vaga na garagem.

As pernas tremeram. Levei quase dez minutos da porta da sala até o portão. Não sabia se quer com qual carro tu estava e me arrepiava a nuca saber que em poucos segundos estaria sob a mira do teu olhar escutando tua voz há poucos centímetros de mim.

Tu desceu do carro, falamos alguma coisa sobre o tempo (sim, havia muito tempo). Você implicou com a cachorra – claro. Sentamos no sofá da sala. Você falava sem parar, ascendeu um cigarro, continuou falando. Te ofereci um copo de água enquanto observava teus traços e seus fios grisalhos que começaram a tomar sua barba te deixando ainda mais charmoso. Já te contei que você é o homem mais bonito do mundo?! Pois é.

Antes mesmo de dar o último trago no primeiro cigarro ja ascendeu mais um. Logo questionei: e aquela história de que quando tivesse um filho iria parar de fumar? Tu negou. Fingiu não saber do que eu falava. Fumou. Tomou a água. Me contou do sucesso da sua empresa, do fascínio pelas aventuras nas trilhas que andava fazendo de moto.

Sentou do meu lado do no sofá. Assistimos A Ursupadora. Tu contou algumas peripécias do teu filho. Eu pouco falei. Não queria estragar tudo. Estava sem voz e precisava decorar cada gesto, cada detalhe, precisava armazenar aquele momento na memória. Porra! Era você! Bem aqui no meu sofá.

Entre um caso e outro você reclamava. Estava cansado da viagem. Repetiu isso 90 vezes. E reclamava de novo. Aliás, você sempre reclama. De tudo. O tempo todo.

Começou Chaves e eu me toquei que a hora estava passando. Daqui a pouco eu teria que buscar o filhote na casa da avó. Tínhamos pouco tempo. Reuni todas as minhas forças, fui lá no fundo do meu ser recuperar um pouquinho da mina descolada, inconsequente e ousada que fui há alguns anos. Aproveitei o minuto de silêncio que rolou e questionei: tu ta mesmo muito cansado?

Tu respirou fundo, virou a cabeça de lado e respondeu: você não está com uma cara muito boa.

Sim. Tu entendeu a deixa e sabia exatamente o que eu queria. Pulei no teu colo. Senti teu cheiro e beijei tua orelha. Depois seu pescoço e, por fim, sua boca. Meu Deus… que boca! Aquele mesmo gosto quente e seco.

A partir daí só lembro que tu tirou minha blusa ainda na sala, nos beijavamos com vontade, suas mãos me apertavam forte e passeavem em todo o corpo, mas em um certo momento te arrastei para o quarto. Precisava te levar ao guarda-roupa. Sim! Nosso lugar favorito! Não era o mesmo guarda-roupa da casa dos meus pais, mas a ideia era a mesma. Eu precisava ter certeza que certas coisas não mudam nunca.

De fato, não mudaram.

Uma hora depois e o celular começou a tocar. Eu precisava ir. Você também. Com a gente nunca teve aquele mimimi de “foi bom rever você” ou se quer um beijo de despedida.
Isso também não mudou. Nos vestimos e você ficou de “pagar as proximas parcelas” em breve.

Abri o portão e tu partiu. Estava empolgado para a trilha que faria no dia seguinte, mas me ameaçou dizendo que caso não conseguisse ir a culpa seria minha – tinha se esforçado demais.

Mentira. Somos muito bons nisso juntos e você seria capaz de passar a noite aqui e acordar cedo super disposto no dia seguinte -como de fato aconteceu algumas semanas depois.

Pois é.
Os dias seguiram. Nos vimos outra vez. Mais uma vez. E outra… e outra. Eu me apaixonei por ti ainda mais em cada um desses encontros. Fui aos céus em cada vez que você me penetrou. Sabia que a tragédia estava anunciada e fiz questão de aproveitar cada segundo perto de ti.

Te ouvi confessar, ainda em cima de mim, que nada é tão bom quanto transar comigo pensando em mim. Ainda se explicou: era complicado transar com outras pensando em mim (oi? Como é isso? ).

Decorei as linhas do teu corpo pela milésima vez, guardei uma meia que tu esqueceu, fiz fotos escondidas, mirabolei finais de semanas juntos, planejei rotas para te levar em meus lugares favoritos e até cogitei viver sob suas condições. Mas, infeliz – ou felizmente – eu ja não sou a mesma, meu caro.

Já não tenho saúde para tamanha inconsequência. Já não consigo ser imune a essa história de ter sua melhor parte, mas não estar de mãos dadas contigo. Já não tenho disposição para esperar o dia que tu pode/quer me encaixar na tua agenda, nem tão pouco consigo me contentar com suas migalhas.

Te ter de segunda a sexta, mas ser obrigada a ver sua moça de batom vermelho postar foto ao teu lado com legenda mela cueca cuspindo em minha face que é com ela que tu passa o sábado e o domingo nas rodas entre os amigos, apresentando à família e curtindo as viagens pelo interior de Minas.

Não sei mais separar amor de tesão quando se trata de você e, no alto dos meus vinte e poucos anos – depois de um casamento fracassado – decidi que não vivo mais pelas metades. De mentira.

Precisei surtar contigo. Vomitar minhas verdades em três páginas de texto corrido, te bloquear em seguida e deletar da lista de contatos. Ignorar tua existência não tem sido algo fácil. Ando perambulando feito um dependente químico em abstinência. Só Deus sabe como tem sido difícil ser eu, mas é melhor assim.

A dor da rejeição beira o insuportável, principalmente quando se está há treze anos tentando convencer alguém do sentimento que tu carrega no peito. Principalmente quando se tem que admitir que todos os passos dados foram para esquecer e superar justamente quem já deixou claro, mais de uma vez, que não lhe cabe no peito.

Olhar pra si e perceber que de nada adiantou remar tanto contra a corrente: você continua parada exatamente no mesmo lugar. Você tentou de todas as formas, mas ele é o dono do seu coração e da sua alma. Você sabe que não precisa, não merece, mas você simplesmente não consegue controlar ou mudar o que acontece dentro de ti. Você insiste em esperar que a pessoa se comova, tenha um estalo a admita que também lhe quer. Você insiste em ir contra todos os sinais que a vida lhe dá. Joga fora os conselhos dos amigos e manda o dedo do meio para os analistas.

A verdade é que não desejo isso a ninguém e tô pagando mesmo pra ver onde é que isso tudo vai parar. Quanto tempo vou segurar minha onda? Por quanto tempo voce vai respeitar minha decisão e não me procurar? Onde estaremos daqui 13, 20, 50 anos? Ainda está pra nascer quem vai me convencer que sou apenas seu sexo fácil. Que não tenho nenhum poder sob você ou que não balanço teu coração. Digam o que quiser, eu vou ficar exatamente aqui esperando sua pose de galã da novela das 21h cair por terra. Esperando sua máscara cair e seus ombros não suportar o peso de renegar o que carrega ai dentro dedicado a mim.

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